17 abril 2014

O amor de uma brasileira e um muçulmano.


É possível dar certo um relacionamento de duas pessoas com costumes totalmente diferentes?

Na cultura brasileira somos livres para escolher o que queremos estudar, trabalhar, seguir e etc; podemos sair e viajar sem autorização dos pais, escolhemos para que time torcer, que religião seguir e temos livre arbítrio para decidir a nossa vida; além de que podemos sair para bares, beber, fumar e se divertir, usamos biquini na praia, comemos aquele churrasco, não vamos à nenhum local religioso, namoramos à vontade e várias pessoas, beijamos em público, e etc. As mulheres brasileiras possuem os mesmos direitos que os homens, não há preconceito quanto à isso. Na cultura brasileira, pelo menos na minha família, não possuímos nenhum ritual ou comemoração religiosa que de fato somos obrigados a seguir, e nosso casamento consiste no amor de apenas um homem e uma mulher.

Já na cultura islâmica cabe aos filhos respeitar e seguir o que os pais dizem e acreditam,os pais escolhem o que os filhos vão estudar e se vão, a maioria das mulheres islâmicas não estudam; os muçulmanos seguem rigidamente o Alcorão (o livro sagrado)no qual demanda diversas regras, tais como: rezar 5 vezes ao dia, cobrir o corpo, não comer carne de porco, jejuar durante o Ramadã, comer carne apenas rezada, ir à mesquita todas as sextas feiras, não tocar nada nem ser tocado com os pés, não beber nada que seja alcoólico, não fumar, não ter nenhuma relação antes do casamento,não se pode namorar no islã, muito menos beijar em público. 
No islã, as mulheres de uma certa forma são inferiores que os homens, primeiramente pouquíssimas estudam e trabalham, a função da mulher é cuidar do lar e dos filhos, sendo que traição é um crime gravíssimo e em alguns países ainda há a pena de morte para mulheres que cometem adultério, muitas vezes são apedrejadas, e de acordo com a religião quando a mulher não se comporta o homem tem o direito de bater nela, mas é lógico esses 2 últimos conceitos vem mudando em alguns países. O povo muçulmano possui alguns festivais nos quais são marcados com procissões, que incluem atos de autoflagelação como bater no peito ou cortar-se com uma lâmina e além de sacrificar animais. E no casamento islâmico o homem pode ter até 4 esposas.

Duas pessoas criadas completamente diferentes, com crenças e hábitos opostos, visto que para uma brasileira é um absurdo os costumes islâmicos e para um muçulmano é pecado os hábitos de um brasileiro, é possível com tantas divergências ainda haver amor?

Eu trajando abaya na Mesquita Islâmica.

Uma brasileira que estudou o que quis, e que trabalha com o que ama, que não frequenta nenhuma religião, que sai, que viaja, do outro um muçulmano que nunca pode escolher o que estudar e que começou a trabalhar desde os 10 anos, que segue o islã, que vive em função da família, e só viaja com a permissão dos pais e que segue aquelas regras islâmicas que citei acima. Um relacionamento com tudo para dar errado, mas que deu certo, eu não sou uma brasileira típica, gosto de saber sobre novas culturas e quando o conheci estava me interessando a saber mais sobre o universo muçulmano e ele me levou nos bairros e mercados islâmicos,e eu adorava, e ele estranhava: "Você é a primeira estrangeira que gosta de usar abaya, que se interessa pela minha religião."

E quanto eu mais eu entrava nesse mundo mais eu queria permanecer, é lógico que determinadas coisas eu não concordo, mas não me importo de usar abaya, acho super prático e consegui ver a fé do povo muçulmano ao rezar, são pessoas que realmente seguem a religião, eu estava desacreditada quanto à religião quando eu estava no Brasil porque as pessoas vão a igreja mas fazem o oposto e no islã eu observei verdadeiros religiosos que seguem realmente o que pregam.

Com o tempo ele foi se acostumando com minhas atitudes e eu com as dele, o que foi mais complicado foi que o que para mim era normal para ele não era, como certas coisas que eu disse que ele não gostou e algumas atitudes dele de autoridade que eu não gostei. Quando alguém olhava para mim ele ficava extremamente bravo, ele não gosta que eu ande sozinha na rua e que eu saia com roupas curtas.

Eu com henna nas mãos, as noivas fazem henna.

Viajamos para a Tailândia juntos e nessa viagem que nos conhecemos 100%, manias, crenças e hábitos vieram à tona. No aeroporto eu estava bocejando, pois nosso voo era de madrugada e ele colocou a mão na minha boca e disse: " No islã colocamos a mão na boca ao bocejar." Eu viajei de sare e dentro do avião deitei no colo dele e depois de um tempo ele disse: " Levanta, está aparecendo a sua barriga e o cara ali olhou."  Eu fazia o que ele pedia, pensava que se eu o amo tenho que me adaptar também. Ao chegar na Tailândia, estava com muita fome, então já havíamos nos trocado e estávamos andando nas ruas perto do hotel e eu comentei que estava com fome que eu queria comer, E ele disse: " Então vamos procurar um restaurante halal." Halal é a carne rezada de acordo com a religião muçulmana virada para Meca, e eu pensei: "Ok". Andamos horrores e nada da carne rezada, eu já estava irritada e parei e comi na primeira esquina o que tinha e ele não gostou muito e não quis comer nada. Voltamos para o hotel e ele não quis subir, disse que me esperaria no lobby para o show a noite. Subi e decidi que também não iria a lugar nenhum que ele fosse sozinho, e ele depois de uns minutos subiu e conversou comigo, disse que me ama demais que não quer brigar e que temos que vencer as diferenças culturais.

Eu no mar na Tailândia.

Em outro momento eu estava deitada e comecei a passar meus pés nas costas dele e ele disse: "Não faz isso, os pés é algo sujo, não se toca em ninguém." No dia seguinte fomos almoçar em um restaurante Halal e depois me peguei falando para ele: "Amor, estou com fome, vamos ver um restaurante halal gostoso?" Fomos a uma ilha e eu fui de roupa e chegou em um momento que ele disse: " Não vai entrar de biquíni, não?" Então eu disse: "Não, estou bem assim, não tem problema."

Com o convívio, fomos se acostumando e relevando as atitudes que no início pareciam erradas e aos poucos foram se tornando apenas diferentes devido a cultura,eu fui relevando muitas coisas, parei de usar roupas curtas e quando estou com ele o acompanho na comida rezada que é bem saborosa.
Assim como ele se interessou à ir a um barzinho na Tailândia, lugar que ele nunca havia ido antes.

Creio que o amor supera todas as diferenças e que não é a cor, a raça, a nacionalidade, a religião, os hábitos e a cultura que afasta o amor da sua vida, muito pelo contrário, quando a sua alma gêmea vem do outro lado do mundo com atitudes e crenças totalmente diferentes, você aprende muito mais sobre a vida, sobre a forma de olhar o mundo te fazendo crescer e amadurecer.

Com um muçulmano ao meu lado me sinto totalmente protegida e segura, ele com as crenças dele vê a sua mulher como um diamante e precisa de cuidados e proteção, o que eu adoro, pois nunca me senti tão cuidada na minha vida. Aprendi que posso sim mudar, ainda mais para melhor, passei a enxergar o mundo e não apenas como cresci, aprendi demais fora do país com as pessoas, costumes e hábitos diferentes. 
Uma das religiões predominantes no mundo é a islâmica, então há algo de especial nessa religião inexplicável, não virei muçulmana, mas aprendi a respeitar o próximo independente de qualquer coisa e hoje enxergo que quem ama de verdade luta e muda pela pessoa, assim como estou me reinventando por ele, ele está fazendo o mesmo por mim e juntos estamos amadurecendo e conhecendo novos mundos desconhecidos anteriormente.

Quem ama de verdade, releva, pensa novamente, conversa, tenta o novo, respeita o outro, crê de uma outra forma, se reinventa... O amor ultrapassa qualquer diferença.

Caroline Moreira
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